O cálculo de
segunda ordem, apresentado pelo Tricalc desde a
versão 7.0, veio abrir um novo leque de possibilidades no cálculo de
estruturas, como por exemplo a possibilidade de estudar os fenómenos de
instabilidade (encurvadura por exemplo) de forma automática, o cálculo de
tirantes integrados na estrutura e com qualquer disposição geométrica (sem
simplificações de cálculo ou restrições à sua disposição no modelo
estrutural) ou a possibilidade de utilizar apoios unidireccionais e
elásticos que trabalham só à compressão.
Nas antigas
versões de Tricalc era possível obter uma
aproximação muito incerta através da utilização de coeficientes de
amplificação. No entanto, dadas as grandes vantagens apresentadas pelo
cálculo de 2ª ordem quando comparado com o método dos coeficientes, a Arktec
sempre procurou integrar no Tricalc o cálculo de 2ª ordem tendo sido
implementado a partir do momento em que a capacidade de computação e dos
algoritmos de cálculo tornaram viável a sua utilização, uma vez que o método
dos coeficientes será descontinuado em face do que comporta de insegurança e
custos para o projecto.
Em antecipação às
novidades da próxima versão Tricalc 7.3, podemos informar que a
Arktec ampliou a capacidade de cálculo em 2ª ordem para a sua utilização em
lajes de fundação, eliminando os apoios elásticos que trabalhavam à tracção
quando a laje tinha tendência para levantar em parte da sua superfície,
introduzindo uma coacção que não é real. Neste artigo analisaremos as
vantagens oferecidas por esta nova funcionalidade do Tricalc
e a implicação que tem nos resultados do cálculo de estruturas que possuem
lajes de fundação.
Tricalc.9: Lajes de fundação e vigas flutuantes
O módulo 9 de
Tricalc permite definir e calcular lajes de fundação e vigas flutuantes
integradas em qualquer estrutura. O modelo de cálculo considerado para as
lajes de fundação baseia-se na modelação com uma malha de barras, com uma
determinada discretização. A interacção entre a laje e o terreno,
considera-se um dos métodos mais comummente aceites, o da proporcionalidade
entre a tensão e a deformação.
Desta forma, as
lajes de fundação modelam-se como um conjunto de barras de secção constante
em duas direcções ortogonais entre si, com apoios elásticos situados nos nós
ou nodos de intersecção. Os apoios elásticos situam-se em todos os nós da
laje, o que significa que se considera em contacto com o terreno em toda a
sua superfície. De forma análoga, as vigas flutuantes modelam-se dividindo
as barras em segmentos e aplicando um apoio elástico nos pontos de divisão.
Em ambos os casos, as barras e apoios elásticos das lajes e vigas flutuantes
conjugam-se com as barras e elementos finitos do resto da estrutura para
gerarem uma única matriz de rigidez que se utiliza para o cálculo dos
deslocamentos, garantindo-se assim a interacção entre todos os elementos
estruturais.
Considerações sobre os apoios elásticos
Os apoios
elásticos podem estar sujeitos a deslocamentos e rotações devido às
reacções, que não são conhecidos até se ter realizado um primeiro cálculo.
Estes dependem das constantes de rigidez utilizadas no apoio elástico: Kx,
Ky, Kz, Gx, Gy, Gz, que representam a rigidez ao deslocamento e à rotação
nos três eixos que representam o espaço. A título de exemplo, a constante Ky
representa a força necessária para produzir um deslocamento vertical do
apoio de 1 cm.
No caso das lajes
de fundação, o programa calcula automaticamente os valores de cada apoio
elástico da laje a partir dos seguintes dados: coeficiente de balasto e
discretização da laje. Para as vigas flutuantes o cálculo é similar,
considerando-se a largura da viga em vez da discretização. Para o efeito as
vigas devem estar pré-dimensionadas antes de se lhes atribuir a condição de
vigas flutuantes.
O cálculo
realizado pressupõe que as lajes de fundação e as vigas flutuantes estão
apoiadas no terreno, ao qual se transmite uma determinada pressão e devido à
qual se produz um assentamento das lajes e vigas flutuantes.
Nas versões
anteriores de Tricalc, os apoios elásticos
trabalhavam tanto no sentido positivo como no sentido negativo. Devido a
esse comportamento, era aconselhável comprovar que não existiam pontos onde
as lajes se separassem do terreno, ou seja, onde se deslocassem para cima,
uma vez que os apoios elásticos efectuariam uma coacção (tracção) da laje
que não corresponderia à realidade, onde o terreno não retém a laje nem
existe nenhuma outra força que ‘prenda’ a laje ao terreno.
Por esse motivo,
aparece uma mensagem de advertência que indica que a laje se levanta em
algum ponto e requer a intervenção do utilizador.

Novidade
em Tricalc 7.3
A aplicação do
cálculo em 2ª ordem, neste caso, permite solucionar o problema que
descrevemos no apartado anterior. Na nova versão do programa, ao realizar o
cálculo para cada uma das combinações de hipóteses possíveis, na análise de
1ª ordem identificam-se os apoios elásticos que estejam a trabalhar à
tracção, e na análise de 2ª ordem identificam-se os apoios elásticos que
estejam a trabalhar à tracção, eliminando-se da matriz de rigidez. Deste
modo, nos pontos onde a laje se levante não haverá nenhum tipo de restrição
a esse movimento, obtendo-se um cálculo das tensões sobre o terreno
totalmente válido.
Este cálculo é
equivalente ao que se realiza para o cálculo de tirantes, onde se anulam as
barras com condição de tirante atribuída e que estejam a trabalhar à
compressão, porém ampliando o conceito aos apoios elásticos que só trabalham
à compressão.
Um
exemplo
Seguidamente
veremos um caso prático onde se reproduzem as circunstâncias que analizámos
anteriormente. Analisaremos uma estrutura tridimensional simples assente
sobre uma laje de fundação:

No plano superior
existem acções com uma importante componente horizontal, o que poderia
produzir um levantamento da laje em um dos seus lados. A imagem seguinte
mostra um gráfico de deslocamentos após a realização de um cálculo de 1ª
ordem elástica:

Graficamente
podemos apreciar que uma extremidade da laje (lado maior) se “afunda” no
terreno, enquanto que a outra extremidade (lado menor) tende a levantar-se.
Neste caso, a maior parte dos apoios elásticos da laje sofrem compressões
enquanto os apoios elásticos situados na extremidade que tende a levantar
estão a ser traccionados, ajudando a que a laje não se levante, o que não
corresponde ao funcionamento real.
Esta situação
pode-se ver ilustrada no gráfico de tensões do terreno:

Se realizarmos um
cálculo de 2ª ordem na versão 7.3, obteremos o seguinte gráfico de
deslocamentos:

Neste caso o lado
menor da laje levanta-se considerávelmente. Este efeito deve-se à retirada
dos apoios elásticos que trabalhavam à tracção, sendo os nós da laje livres
para se movimentarem pois não se consideram trabalhando à tracção.
Neste novo
cálculo (em 2ª ordem em lajes de fundação), o estado das tensões do terreno
é totalmente distinto do cálculo em 1ª ordem:

A zona
representada a cor azul é a zona do terreno onde não existem compressões,
uma vez que a laje levanta-se nessa zona.
Podemos ver a
diferença entre o cálculo em 1ª ordem e 2ª ordem com a listagem de
deslocamentos de um dos pontos situados no lado menor:

O deslocamento
vertical positivo (para cima) na listagem “A” (1ª ordem) é muito menor que o
valor obtido em “B” (2º ordem).
Em vista destes
resultados, pode-se deduzir que um cálculo através do método simplificado
dos coeficientes de amplificação nunca pode chegar a cobrir este tipo de
casos, pelo que se requer a utilização de um cálculo em 2ª ordem com as
características que incorpora o Tricalc desde a sua versão 7.0.