A próxima versão
de Tricalc incluirá a possibilidade de calcular
vigas aligeiradas de aço, com diferentes tipologias de aligeiramento.
Um pouco
de história
As vigas
aligeiradas ou também chamadas vigas Boyd foram inventadas por Geoffrey
Murray Boyd na década dos anos 30 do século passado, quando trabalhava na
construção de uma grua mono carril. As vigas que tinha em stock para
realizar o trabalho tinham a largura de banzo necessária para que a grua
pudesse deslocar-se, mas nenhuma tinha rigidez suficiente para poder
comprovar o vão que necessitava vencer. Boyd decidiu cortar as vigas de
duplo T que tinha através de uma linha quebrada de tal modo que as duas
partes resultantes podiam sobrepor-se e soldar-se, criando uma nova viga de
maior altura com aberturas na alma. O aumento da altura aumentava a rigidez,
enquanto o peso por unidade de comprimento permanecia constante.
Por exemplo, um
perfil IPE de 300 (h = 300 mm, Iz = 8.356 cm4 e Wpl,z = 628,4 cm3), pode
passar para uma secção aligeirada com alvéolos hexagonais de altura 480 mm
com uma inércia equivalente de Iz = 22.990 cm4 e um módulo resistente mínimo
de Wpl,z = 4.704,3 cm3.
Tipos de
vigas aligeiradas
Os tipos mais
habituais de vigas aligeiradas, dependendo do corte realizado na viga base,
são os mostrados na Figura 1: com alvéolos hexagonais, octogonais e
circulares.
A forma de obter
as aberturas octogonais é a mesma que para as aberturas hexagonais, mas
adicionando uma chapa elevadora que aumenta ainda mais a altura. São menos
utilizadas por originar uma alma demasiado esbelta, provocando problemas de
instabilidade. Com outros cortes podem conseguir-se outras formas de
alvéolo.

Figura 1: Alguns tipos de vigas
aligeiradas
Métodos
de cálculo
Por não existir
nas normas actuais (nem Eurocódigo 3, CTE, AISC), métodos ou critérios para
calcular este tipo de vigas, esse cálculo pode abordar-se de duas formas.
Uma das formas é através da utilização de elementos finitos e a outra
consiste em fazer uma aproximação através um método simplificado, que
consiste em assimilar o problema a uma viga ‘Vierendeel’ com acções
concentradas nos nós, com rótulas nos pontos médios das almas e dos banzos,
como se vê a amarelo na Figura 2.

Figura 2: Simplificação como viga
Vierendeel
O momento e o
transverso existente numa secção como a A-A da Figura 3 distribui-se entre
os banzos superior e inferior como um par de forças de valor M/h e metade do
transverso Q para cada banzo. Na secção B-B da mesma figura, a força M/h
provoca um axial e o transverso Q/2 provoca um momento. Nessas secções há
que comprovar se resistem aos esforços actuantes.

Figura 3: Distribuição do momento e
transverso entre os banzos superior e inferior
Para além destas
comprovações nos banzos é necessário comprovar na alma a capacidade de
absorção de transverso, o esforço de corte na zona da soldadura, assim como
os fenómenos de instabilidade local.
Aplicação
prática
Actualmente são cada vez mais as estruturas que incluem vigas aligeiradas,
tanto pelo efeito visual que produzem como pela vantagem real quando se
pretende vencer grandes vãos. Normalmente utilizam-se em grandes naves
industriais, polidesportivos, passagens, etc. Para além das vantagens de
aumento de rigidez, módulo resistente e diminuição de flecha, as condutas
para as instalações podem atravessar estas vigas pelas aberturas, o que
também origina uma poupança de espaço.

Fotografia extraída do catálogo de
ArcelorMittal: “Vigas
alveolares”
Implementação em Tricalc
Para responder à
necessidade de cálculo deste tipo de vigas, Tricalc implementa a sua
introdução e tratamento. No momento de introduzir os perfis, o utilizador
disporá de uma grande liberdade para definir a sua geometria. Pode
iniciar-se a geometria desde um perfil da base, para depois adicionar as
características particulares do aligeiramento: tipo de alvéolo, separação
entre alvéolos, relação entre alturas… Para definir o perfil base o
utilizador poderá introduzir os seus próprios parâmetros ou basear-se num
dos perfis que já exista na base de dados, através do botão “Seleccionar
perfil base”, como se observa na Figura 4. Os aligeiramentos permitidos são
de três tipos: hexagonais, octogonais e circulares. Dependendo do tipo de
alvéolo seleccionado, solicitam-se os parâmetros adicionais necessários para
a sua definição da geometria.

Figura 4.
Uma vez
introduzidos todos os dados, o botão “Ver características” permite aceder às
características do novo perfil (Figura 5), obtendo automaticamente os
momentos de inércia, módulos resistentes elásticos e plásticos… Todas estas
características são apresentadas para os três tipos de secção: secção cheia,
secção aligeirada (um “T”) e secção equivalente.

Figura 5: Parâmetros do perfil
aligeirado
Secção
equivalente
O conceito de
secção equivalente consiste em considerar uma secção sem alvéolos, supondo
uma espessura de alma menor em toda a banda ocupada por esses alvéolos,
distribuindo o aço disponível nessa banda de forma homogénea. O momento de
inércia é maior que o da secção aligeirada mas algo menor que o da secção
cheia.

Figura 6: Secção equivalente
Fazer esta
equivalência é necessário inicialmente para o cálculo dos esforços, já que
será o momento de inércia dessa secção o utilizado para completar os termos
da matriz de rigidez da barra. Esta inércia equivalente também se utiliza
para o cálculo da flecha.
Zonas
maciçadas
Neste tipo de
perfis é muito habitual que no inicio e no final da viga exista uma zona sem
aligeiramento, para resistir melhor os esforços transversos, permitindo
também colocar os dispositivos de ligação entre elementos. Quando se realiza
a atribuição destes perfis às barras de Tricalc, uma caixa de diálogo
permitirá estabelecer que percentagem dessa barra estará maciçada nos
extremos.
Para o cálculo,
tal como se faz habitualmente em Tricalc,
analisa-se segundo o procedimento estabelecido para as secções de cada
barra. Utiliza-se a analogia de ‘Vierendeel’ de modo a decompor os esforços
actuantes em cada secção. Desta maneira podemos saber os esforços que vão
actuar sobre o banzo superior, o banzo inferior e sobre a alma. Nos banzos
haverá que considerar a posição da secção, já que se deve ter em conta as
secções A e B da Figura 3. Depois fazem-se as comprovações que procedam de
cada normativa para os banzos superior e inferior e para a alma: compressão,
tracção, flexão, torção, transverso, combinações de esforços, encurvadura
local… Para os banzos superior e inferior utiliza-se no cálculo a
semi-secção aligeirada, ou seja, a secção em “T” que resulta depois do
aligeiramento. As comprovações realizam-se considerando que cada secção
analisada pode conter aligeiramento ou não, ficando assim o cálculo do lado
da segurança e cobrindo possíveis erros na colocação dos alvéolos durante a
fabricação das vigas.